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o "câncaro", o meu pai e eu #7- dia 17

por lady magenta, em 23.09.11

(imagem retirada da net)

 

 

É certo e sabido que não sou, de todo, certa do juízo. Ultimamente, pela força das circunstâncias, estou bem pior... Oiço as palavras dos outros, vejo os trejeitos faciais, mas não absorvo a informação. Não dá jeito...Nenhum. Por outro lado, tenho uma horda de amiguinhos imaginários, com os quais tenho mantido acesas discussões, nos últimos dias...

Durante alguns momentos desta tarde, passeei o envelope fechado que continha o tão esperado relatório. O parto foi difícil, mas o dito foi parido.

Ele passeou comigo de carro no centro de Lisboa, de cinto posto e no lugar do pendura. Fumámos o cigarro da ordem, ouvimos música alta, fizemos gestos obscenos aos pseudo-condutores profissionais e, esperámos. Esperámos que a coragem tomasse conta de nós e, se apossa-se dele com vontade suficiente para encarar a realidade. A angústia apoderou-se quando percebi que deveria ter seguido a carreira de radiologista...Não percebi ABSOLUTAMENTE NADA do que dizia...Não era para perceber. Telefonei ao médico, li-lhe o relatório. O diagnóstico mantém-se.

Durante o dia, por alguns momentos, idealizei milagres, enganos, pedidos sofridos de desculpas...Em milagres não acredito, em enganos por profissionais competentes também não, pedidos de desculpa evitam-se...Enfim... Podia ter passeado com o dito envelope e o desfecho ter sido diferente. Não foi...Segunda feira começa nova batalha, em novo hospital com profissionais tão competentes quanto os outros. Hoje dormi, tomei banho (finalmente!) e comi em condições...Talvez à espera que me fosse contrariada a tendência céptica... Hoje esperei por um milagre. Não aconteceu.  

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publicado às 18:57

o "câncaro", o meu pai e eu #6- dia 16

por lady magenta, em 22.09.11

(imagem retirada da net)

 

 

Hoje foi dia de corrida ao hospital. Temos sorte neste aspecto... O médico que nos "saiu na rifa" é humano, não sofre do síndrome de " deus"...(pelo menos aparentemente) Normalmente quando tenho de o encontrar, costumam dizer que "está em boas mãos". O colega que o aconselhou, disse exactamente o mesmo; " Não podia estar em melhores mãos. Se fosse o meu pai, era a ele que recorria..."

Hoje andei feita barata tonta à procura dele...Ele encontrou-me. Juntos vimos as imagens da última ressonância, aquela que irá ditar o resto do percurso...Não gostámos do que vimos. Um rim quase todo ocupado pelo tumor, a artéria mesentérica comprometida, o ducto pancreático também...Resta saber se os gânglios adjacentes também estão comprometidos...Para isso terei de correr para lá antes das 9h. de amanhã...Esperar que a médica que lhe fez a ressonância seja igual a este profissional espectacular e, do alto da sua caridade me passe o relatório, para o poder ler ao telefone ao Dr. que mesmo na sua folga, se disponibilizou a facultar-me o seu numero de telefone pessoal para o maçar... Não que ficasse feliz com a ideia de chatear alguém, no seu descanso merecido, mas a urgência da situação assim o impôs... Hoje não foi um bom dia. Amanhã, provavelmente também não...

Só espero ao menos lembrar-me de comer...E já agora de dormir...

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publicado às 19:31

os outros e eu #1

por lady magenta, em 21.09.11

(imagem retirada da net)

 

 

Entendo que a toda a hora me digam que tenho de reagir. Sei que tenho, mas neste momento não sou capaz. Acho que tenho de dar tempo ao tempo, para tentar organizar as ideias.

Todos sofremos de forma diferente, todos reagimos de forma diferente. O comentário que mais tenho ouvido tem sido "Ele ainda não morreu!!!"...Pois não. Eu sei. Nem de forma alguma me sinto tão triste pela iminência de ele me ir faltar...No fundo o que deita realmente abaixo, é pensar que ele está a sofrer e não lhe posso fazer nada...Da mesma forma que me custa pensar em todas as provações que passou, para vir a morrer de uma forma odiosa...Em sofrimento...Totalmente dependente.

Habituei-me a ver o meu pai como um herói...O super herói que levou 14 anestesias e acabou por retirar as amígdalas a sangue frio, durante a guerra colonial. O herói que lutou numa guerra sem sentido e, que voltou para contar a história. O herói que com uma hérnia estrangulada foi sozinho para o hospital sem dar parte fraca, nem dizer nada a ninguém. O herói que não se queixa...Não geme. O meu pai é o meu herói...O meu filho mais velho também. No mesmo dia em que soubemos que o avô, provavelmente só terá 3 meses de vida, o pai dele, meu ex-marido, ficou a saber que não fará mais quimio...Na perspectiva da equipa que o segue, terá entre 6 meses a 1 ano de vida. A vida é assim. Eu sofri com ele tudo o que passou até agora com a doença do pai. Agora é ele que sofre comigo. O meu pai é o meu herói. O meu filho mais velho também...

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publicado às 20:08

o "câncaro", o meu pai e eu #5- dia 15

por lady magenta, em 20.09.11

(imagem retirada da net)

 

 

Esta noite foi uma má noite...As dores são as tua companheiras de todas as horas e, nós meros espectadores, temos de assistir sem nada poder fazer...

As dores acompanham-te, a mim acompanha-me a falta de sono...Queria sofrer de "hosmose-parental" e dividir as tuas dores, ao menos dormias menos mas não sofrias tanto. Ontem foi dia de mais um exame, amanhã é dia de mais uma conversa com o médico espectacular que te acompanha...As nossas conversas são concisas e precisas. O pior é quando saio de lá...Normalmente sento-me no chão do corredor e choro. Escondo a cara nos joelhos e escondo a minha dor do mundo. Vejo as pessoas passarem e leio nos seus rostos a interrogação, "Deve estar mal...", "Está muito doente..."

Ontem vi-te a arrastar os pés de dor, mal te mexias...Nem um gemido, nem uma palavra proferis-te. Tens o hábito de dizer que não gostas de maçar ninguém...Se te aliviasse, preferia que gritasses comigo, que me batesses...Se isso te levasse a dor. Não leva. Temos de estar cá para assistir a tudo e ver-te definhar de dia para dia. Hoje ainda não sais-te da cama. Hoje ainda não dormi.

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publicado às 11:09

o "câncaro", o meu pai e eu #4- dia 13

por lady magenta, em 18.09.11

 

(imagem retirada da net)

 

Acredito piamente, que em situações como a que estou a passar, ninguém saiba bem o que dizer ou como agir...

Mas também sei que temos a extraordinária capacidade de dizer coisas, menos felizes...

Eu por mim, tenho a estranha capacidade de me rir alto e bom som, de tudo o que é estranho, macabro e triste. Sou do tipo de pessoa a quem dá valentes ataques de riso em velórios, se ri que nem uma perdida quando vejo alguém a cair na rua... Por isso não levo a mal e, compreendo perfeitamente que os que falam comigo me digam, recorrentemente -"não sei o que te hei-de dizer"; "não tenho palavras"...

O que de todo não acho normal, mas até compreendo, são coisas do tipo, "tens de ir já fazer exames"; "vais morrer do mesmo"; "que idade o teu tinha", e outras tantas que nem guardei por serem exageradamente estúpidas...

Que a herança genética não é das melhores já sei, no entanto, não significa que vá desenvolver a doença.

O meu pai tem 69 anos...Ainda cá está.

Fazer exames para quê? Poderei até morrer atropelada... Poderei até morrer de velha.

Não vou fazer dos factores genéticos a minha cruzada pessoal.

Vou gozar os momentos que me restam com o meu pai, que AINDA cá está... Não ficar hipocondríaca só por ele estar a morre de cancro, que pensávamos ser no cólon e afinal é no pâncreas... Enfim.

Por estas e outras tantas que nem vale a pena mencionar, é que sempre que falo com alguém peço, "por favor, vou falar contigo, mas depois não me faças perguntas..."

É por estas e por outras que dou respostas menos felizes e, ainda têm o descaramento de me dizer que tenho mau feitio...

Se respondesse à letra, tenho a certeza que já ninguém me falava...

Se está a ser fácil? Óbviamente que não. Com comentários destes, ainda bato em alguém...Depois posso sempre alegar um súbito momento de loucura devido às circunstâncias.

 

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publicado às 10:25



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